KASTRUPISMO por Cacá Machado

No Brasil, além de nossa aptidão natural e original para fazer canções também salta aos ouvidos a nossa aptidão orgânica para a criação rítmica. O equilíbrio entre a palavra e o ritmo parece ser o nosso dom, aliás, isto talvez seja indicativo sobre a força e a importância da palavra cantada em nossa cultura musical. Contudo, neste ambiente diverso de ritmistas, melodistas, cancionistas, acredito que dois artistas brasileiros ganharam dimensão mundial fazendo do ritmo, sobretudo, um trabalho autoral: Naná Vasconcelos, com a busca do fluxo ancestral dos ritmos brasileiros e africanos e Airto Moreira, como exercício do fluxo livre da improvisação jazzística aplicado aos mais diferentes gêneros musicais. A abordagem autoral desses artistas se construíram de modo tão singular que o reconhecimento de suas características é imediato. Assim, criaram no ambiente da música popular um lugar único entre a música instrumental e a canção: música percussiva brasileira.

Guilherme Kastrup faz parte desta tradição de percussionistas e bateristas autores. Faz parte, na realidade, de uma segunda geração que trouxe um novo elemento à marca autoral dos mestres: a aderência do Groove na canção brasileira. Uma geração que teve Marcos Suzano e seu pandeiro turbinado “groovando” as canções de Lenine. Que teve o brasileiríssimo argentino Ramiro Musotto fazendo os baianos “suingarem” ao som de sua polifonia ritmo-eletrônica nas canções Axé Music de Daniela Mercury. E que tem Kastrup.

Como instrumentista ele acompanhou, em vinte anos de atividade, uma variedade ampla de artistas da canção popular brasileira que vai desde Zizi Possi e Ana Carolina até Zé Miguel Wisnik passando por Adriana Calcanhoto, Vanessa da Mata, Chico César e Arnaldo Antunes, estes últimos, aliás, com quem criou uma parceria artística duradoura e profunda. Mas independente do nível de cumplicidade artística, por onde passa deixa sua marca autoral: sonoridade sólida e segura, tecnicamente perfeita, somada a uma livre inventividade timbrística e melódica. Tudo parece fácil em sua mão. Ele é aquela figura que no palco está sempre sorrindo e que chama atenção pela dança fluída de seus gestos. Tocar com Kastrup significa ter o fluxo do som garantido em todas as suas nuances.

Natural que o desdobramento de uma atividade de instrumentista tão marcadamente autoral desembocasse no trabalho do criador de discos – que também não deixa de ser em certa medida uma arte de equilibrar fluxos (dos desejos, das ansiedades, das possibilidades, além dos musicais, é claro). Nos últimos anos Guilherme Kastrup tornou-se um requisitado produtor musical e acabou se envolvendo em projetos com Zeca Baleiro, Márcia Castro, Banda Glória e Bruno Batista, para não estender demais a lista.

Agora, com Kastrupismo, o músico, produtor e artista se revela por completo. E a palavra fluxo volta aqui com força novamente. Ao longo das dez faixas do disco ouvimos as diferentes faces do artista: o pesquisador informal dos ritmos brasileiros, o produtor musical antenado nas novidades que fervilham na cidade, o compositor de texturas sonoras oníricas e até lisérgicas, o rigoroso instrumentista e o músico generoso e articulador de encontros, que proporcionou as excelentes participações de Estevan Sinkovitz, Ricardo Prado, Benjamim Taubkin e Marcelo Monteiro. As faixas são, na realidade, movimentos de uma grande peça sonora, cujo resultado é a criação de uma poética pessoal (porque não “kastrúpica”?) que mantém teso o diálogo com aquele lugar único da música percussiva brasileira de que falamos.

Prova da força que o fluxo tem em Kastrupismo é que o disco não acaba. Na última faixa, “No final”, o artista construiu uma trama sonora que parte da conhecida clave do samba de roda do recôncavo baiano, tá-táa-tá, e vai além, muito além, com a inserção de samplers e de paisagens sonoras que alimentam a circularidade ancestral daquilo que é dito e quase não ouvido pela voz do autor: “No fim tudo continua igual/Um pouco mais comum do que o normal”. Sabedoria leve e profunda.

Cacá Machado
Primavera de 2013