KASTRUPISMO por Arnaldo Antunes

Depois de anos contribuindo para o trabalho de outros artistas com seu talento de baterista, percussionista, programador e produtor; Guilherme Kastrup finalmente nos apresenta seu primeiro trabalho autoral — instrumental com pegada de canção, experimental mas saborosamente pop; música para ouvidos livres.

Construído com muitas edições, sequências, samples e programações, mas a partir de sons gravados (a maioria deles acústicos), Kastrupismo não soa como um disco eletrônico. Flui organicamente, entre riffs e ruídos, assobios e sopros, cordas e tambores. A estética da colagem lhe dá um caráter original que, conjugado à musicalidade espontânea dos fraseados e batuques, consegue nos embalar e surpreender a cada compasso.

A faixa Tá Maluco, Rapaz é um exemplo incrível de ousadia e inventividade, sobrepondo a gravação de um depoimento de Cartola a uma levada de samba meio entortado (que lembra TomZé), num procedimento semelhante ao usado por Brian Eno e David Byrne em My Life In the Bush of Ghosts, enquanto responde também, por outro caminho, às questões de Luiz Tatit sobre as inflexões da fala como princípio da canção.

A elegância das combinações instrumentais; as profundidades das mixagens; a sofisticação rítmica; a liberdade no cruzamento de gêneros; a riqueza de detalhes, dinâmicas, timbres — tudo se combina aqui para apresentar um disco original e envolvente, que dá vontade de escutar muitas e muitas vezes. Trilha para o filme da vida.